Apologia do brilharete.

Março 14, 2011

Sentados à sombra de uma azinheira, numa alva planície urbanística de uma típica localidade do norte do mediterrâneo, Pedro N. de O e Paulo S. deparam-se com o esplendor da natureza que os rodeia. Este estupor perante as coisas existentes, as quais são percebidas nesse momento pelos sentidos de ambos, deve-se a uma falha na conexão internet, que os obrigou a deixar de lado o facebook por alguns momentos. Confrontados com a grandeza e beleza das coisas não virtuais, Paulo S. é perturbado pela a actividade de algumas mónadas que o levam a questionar a origem de todas as coisas, e eventualmente a constituir uma nova cosmogonia ou teologia da criação.

 

 

Pedro N. de O.: Que belo dia querido Paulo S. Regozijo das aves que cantam, e do vento que acaricia os campos, beijando a terra cultivada pelo homem, como se de uma bênção celestial se tratasse.

 

Paulo S.: De facto está um belo dia. Mas este melhor seria se me pudesse desfazer uma dúvida que me aflige.

 

Pedro N de O.: Mas que dúvida te aflige. Não serão antes as dívidas que afligem em vez das dúvidas?

 

Paulo S.: Que quer dizer com isso meu senhor?

 

Pedro N. de O. : Pretendo eu questionar se a dúvida, em lugar de nos provocar aflição, não nos poderá ela trazer prazer, pois nos faz procurar, ou seja agir no mundo e na vida, levando-nos à procura, ao empenho, e movendo-nos. Dinamiza-nos.

 

Paulo S.: Não compreendo.

 

Pedro N. de O.: Pergunto se não seria a vida sem dúvidas uma grande nóia. Ou como dizem os jovens uma tremenda fatelice?

 

Paulo S.: Talvez o fosse, mas porque o afirma?

 

Pedro N. de O.: Ainda não estou a afirmar, estou somente a questionar. Diz-me então, o que te parece de uma vida na qual não nos confrontássemos com a dúvida.
Paulo S.: Diz no sentido em que tivéssemos respostas para tudo,  já previamente registadas em nós?

 

Pedro N. de O.: Sim.

 

Paulo S.: Penso que poderia ser uma grande seca, mas poderia ter algumas vantagens.

 

Pedro N. de O.: E agora te pergunto: e na vida gostas de falar, encontrar-te com amigos e discutir sobre assuntos diversos? Como por exemplo a regionalização; a manif. dos à rasca; ou de coisas mais contemplativas como o potencial de um decote e o como este pode enfatizar a beleza de uns seios?

 

Paulo S.: Claro que sim.

 

Pedro N. de O.: E então não te parece que se já tivéssemos respostas para tudo, então essa prazerosa actividade de diálogo com os outros seria impossível ou pelo menos inútil?

 

Paulo S.: Sim, se já tivéssemos respostas para as dúvidas o diálogo seria de facto inútil.

 

Pedro N. de O.: Então concordas que se já tivéssemos as respostas às nossas dúvidas, a conversa que estamos a ter não teria acontecido, e que por isso teríamos sido privados do prazer de comunicar um com o outro?

 

Paulo S.: Sim, tendes razão.

 

Pedro N. de O.: E concordas que uma coisa típica do dasein, que como sabes é um ser no mundo com os outros, é a de dialogar e de crescer no mundo com os outros?

 

Paulo S.: Não poderei estar mais de acordo com o pensamento da ontologia Heideggeriana e afins.

 

Pedro N. de O.: Nesse caso concordas que este método socrático-dialógico é fundamental para o ser-aí-no-mundo-do-paleio-com-os-outros?

 

Paulo S.: Evidentemente que concordo. Mas e se não estivesse de acordo?

 

Pedro N. de O.: Se não tivesses de acordo far-te-ia outras questões. Mas estás?

 

Paulo S.: Estou.

 

Pedro N. de O.: Então, para terminarmos em paradoxo ide em paz com as tuas dúvidas que a conversa acabou por hoje.

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