Para uma arqueologia do saber II – a arqueologia da ignorância

Julho 27, 2009

A articulação do discurso, paradigma, enunciado, proposição, episteme, subjectivação/objectivação, posicionamento…

 

                                               Sim, linhas de tensão.

 

Mas, e no que diz respeito à questão antropológica, meu caríssimo amigo? O que é isso de andar por aí, com um corpo-símbolo, sacramento farmacológico/neurológico/tautológico, uma espécie de repetiçãozinha rasca de domingo à tarde.

 

Tipo… emissão constante do esquadrão classe A pela TVI há uns valentes anos, quando me encontrava de férias?

 

Ok, pode ser isso. Mas, para isso, precisamos de uma outra noção, a de tecnologias do sujeito. E acho que podemos utilizá-la para evidenciar todos aqueles procedimentos que se levam a cabo precisamente para ARRANCAR essa merda que insistem em nos colocar cá dentro.

 

Esse corpinho? Esse espírito? Essa performance?

 

Sim, essas coisas todas. Estou a falar daquilo que se faz quando queremos sair de nós mesmos.

 

Hum…compreendo… para além da alteração da performance, toda uma parafernália de substâncias da alteridade?

 

Sim, isso, outros sacramentos…Acho que é um pouco nessa linha. Trata-se de ver e de manufacturar no gesto de ignorância.

 

Ignorância?

 

Ignorância, saber…

 

Parece-me que não chega. Não-coincidir.

 

Isso chega perfeitamente. Mas é preciso que te desarticules todinho! Que nem sequer sejas capaz de dançar…eras capaz de viver com isso?

 

* * * *

 

Capaz de viver na transgressão. Ser funâmbulo, tropeçando numa corda apodrecida de cada vez que se tenta uma acção de equilíbrio. Pois é isso, estar disposto a cair, deixar de identificar aquela sombra, em queda, como duplo de alguma coisa; deixar de reconhecer a treta do fiozinho de cordel que é preciso acompanhar a cada passo, cuidadosamente; rejeitar a idiotice da performance tetraplégica e a prótese da vara branca, infinita; rebentar com o público, expectante, desejoso da queda, mas ao mesmo tempo paternalista; rasgar com os dentes aquele tecto, de circo, pútrido, inundado pelo cheiro de excrementos dos animais, manchado pelo suor de todos. Manchado.

* * * *

 

Trata-se disso? De cair?

 

Não me parece que possamos colocar as coisas de outra forma. Mas é a relação com a imagem. É a parte visível, em relação à qual nos deslocamos. É a metáfora possível para uma arqueologia da ignorância.

 

Olho para o sismógrafo. Suscita-me serenidade. O ponteiro, parado. Arqueologia? Broca auto-erótica que, ao invés da reificação, escolhe a destruição sistemática e cruel do sedimento, eleva à categoria de destino a acção desapropriante do seu próprio percurso.

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