o que vejo é o que penso, o que penso é o que consigo ver
Junho 23, 2009
para uma arqueologia do saber
(parte I)
What’s wisdom? Wisdom is that whatever happens you have a good excuse. Wisdom means you do something. If you succeed, then you have a proverb which is a form of wisdom to legitimize it, like we in Europe have a proverb, a standard one which says, Only those who risk can succeed [no nosso português “quem não arrisca não petisca”]. If you fail we have another proverb to legitimize it which says in very vulgar terms – something, I don’t have it in English – You cannot urinate against the wind. That’s wisdom for me. Anything goes basically. The basic wisdom is that differences don’t matter, what was up comes down, this eternal circulation of fortune, and so on and so on.
Robim Z.
Entre os enólogos, quando um vinho, durante a sua produção, leva água, é costume definir-se esse gesto por green snake – isto porque as mangueiras que estão nos lagares são de cor verde. Mas o que me interessa aqui salientar é a utilização da metáfora-imagem da “mangueira/serpente”. Tal como a serpente bíblica adopta o significado de mal-necessário [1], e é nesse sentido que, a meu ver, o termo green snake é utilizado: como um mal-necessário, neste caso, para com o vinho [2]. Penso que o uso da água acontece por ser vantajoso economicamente para a produção vinícola, onde a velha lógica capitalista toma forma: máximo de produção ao mais baixo custo possível (o termo “possível” é-o sem limites, excluí a parte humana). Para além da sua utilização no vinho (técnica, anexada a um saber), é a sua utilização entre os enólogos que me interessa tratar aqui.
Vou utilizar o provérbio anglo-saxónico big picture como metáfora-imagem. O esquema é simples: ver a big picture é ter a noção completa de um saber (por ex.: Alberto E. no processo da formulação da teoria da relatividade, estava a ver algo mais – nesse quadro (painting) – que os restantes físicos que o desacreditavam na altura.). Então, um grande quadro traduzido num conhecimento amplo, não reduzindo todo o conhecimento num só quadro; vários quadros para vários conhecimentos (ou áreas de conhecimento, como preferirem). Ou seja, disponho em mim, ou dando continuação à metáfora-imagem, diante de mim um quadro (que equivale a um conhecimento, um qualquer), mas só consigo ver uma parcela (ou fragmento, termo mais adequado para entender a arqueologia que tento mostrar aqui).
Vou passar da metáfora-imagem para um exemplo mais visual. O que se consegue ver desta parcela pertencente a um quadro, que neste caso, pertence a um conhecimento?:

Esta parcela é o que consigo ver, e o que consigo pensar sobre certo assunto. Como se esse quadro/conhecimento tivesse dividido em linhas quadriculadas, e eu só conseguisse ver um quadrado (que é o que acontece com esta imagem em questão). Eu sei que é um quadro, mas não consigo tirar partido dele. Tal como sei que é um conhecimento (vago, Matemática, por exemplo), mas não sei o que tenho diante de mim. Só por esta imagem, não consigo perceber. Eu posso ver os olhos de uma pessoa, podem até ser os olhos mais belos que já vi, mas nada me garante que o resto da face e corpo correspondem-lhes. Aqui é onde entra a parte da ilusão e da não-satisfação com o que se vê/pensa.
Parti de um provérbio, que como Z. disse «é uma forma de sabedoria», e eis aqui a big picture que foi tratada neste texto:

A Guernica (1937) de Paulo P.; o quadrado em branco é a parcela acima referenciada.
Se todos pensamos desta forma? Se assim fosse, eu não teria escrito o que acabei de escrever.
[1] Pois foi graças (termo apropriado para aqui) a isso, à serpente (que corresponde a Satanás, segundo os estudiosos da Bíblia), e ao erro de Eva, que o Mundo ficou povoado de pessoas.
[2] Numa definição básica e breve, o liquido do vinho é obtido, ou deveria ser, pelo sumo da uva, e é na fermentação – tal como o nome indica – que se dá a transformação de uma substância (uva e os seus componentes para lhes dar um aroma distinto de vinho para vinho) em outra (vinho).